Espelhos

Dentre os dias corridos, houve um com mais pressa. Estava empregado, ganhando relativamente bem, mas eis que surge um telefonema. Era alguém do RH doutra empresa, convidando a participar do processo seletivo. Aceitei. A proposta cobria meu atual salário. Porém, pensando mais tarde com calma, comecei a reconsiderar. Gostava tanto de onde estava, bem alinhado aos meus planos profissionais, clima agradável, estabilidade e boas oportunidades de crescimento. Considerei apenas ver até onde ia o processo e depois dar a martelada final.

Uma semana depois, todas as etapas feitas, o resultado sai: Aprovado. Já havia pensado bastante, e estava decidido em não aceitar a proposta, caso fosse esse o final. Até porque, coincidentemente, recebi uma promoção na atual empresa e tinha que dar uma resposta se iria aceitá-la ou não. Liguei para a primeira empresa, expliquei tudo e abdiquei da vaga. Trabalhava perto de casa, ia a pé. Sempre passava por uma igreja. Tinha um tempo livre. Entrei. Havia uma missa de Sétimo dia, o pessoal chorando, o clima fúnebre, tudo cinza lá dentro. Veio-me um arrepio, não entendi bem. Vagarosamente, me aproximei, meio não querendo, mas forçado por alguma coisa que não compreendia. Uma foto, tinha uma foto num dos cantos. Acho que era do morto. Aproximo. Alguns familiares percebem, mas nada dizem, permanecem cabisbaixos, chorando. Quando reparo na foto, senti uma dor no peito, só pude correr, em desespero. Aquela cena me saiu nostálgica.

Cinco anos antes, estava prestando vestibular. Muitas dúvidas, pressões e vontades. Meu sonho era Letras. Todos me queriam Juiz. Ao final do processo, passei para ambos os cursos, eis aqui a escolha cruel. Ceder à pressão externa ou à interna? Verifiquei todos os ângulos, era ambicioso, e decidi pelo Direito. Letras não me levaria aos triunfos que tanto queria, pensei.

Já era maior de idade quando prestei vestibular, fiz minha inscrição sozinho. Liguei noutra universidade abdicando da vaga para Letras. Voltando da faculdade de Direito, havia um cemitério. Algo me chamou a atenção naquele gramado gigantesco. Entrei. Por um instante, senti não estar controlando meu corpo. Frio na nuca. Segui um caminho que não sabia onde levava, algo me conduzia. Cheguei num enterro. Todos chorando, debaixo de uma árvore enorme, muito bonita. Cabisbaixos, alguns me reparam, mas não me olham. Eles nunca me olham. Alguns, tinham semblantes familiares, mas não conseguia focar o bastante para tentar reconhecer. Fui puxado por uma força estranha para perto do padre, sério, olhando bem no fundo dos meus olhos. Havia um rosto velho, eu senti frio quando o vi. Eis que ele pega a bíblia e coloca-a sobre o caixão, como quem quer guiar meu olhar. Sigo tua mão, vejo aquele objeto. Madeira fosca, rosas brancas, e um rosto. Susto. Uma dor no peito. Corri, sem saber para onde ir.

Àquela época, escrevia muito. Nem sabia que aquilo era poesia, mas guardava no fundo do meu guarda-roupas. Era meu segredo oculto. Veio uma nostalgia. Depois de tudo isso, só consegui escrever. Eis o que sai:





Um ano antes, muitas festas, amigos, bebidas, beijos e amassos. Auge da adolescência. Fui com um amigo um pouco mais velho, que tinha permissão para dirigir, a uma enorme festa, regada a álcool. Não sabia como voltar, nem queria saber. Meu amigo bebeu. Bebeu tanto que estava trocando nomes, correndo pelo ambiente, fazendo gracinhas. Hora de ir embora, já estava de manhã. Meu melhor amigo estava, não quis que eu fosse com o bêbado. Era perigoso, dizia. Sugeriu irmos de táxi. Brigamos. Eu bêbado, queria ir com quem havia vindo. Ele não queria deixar. Entro no carro, teimosamente. Partimos. Minutos depois, buzina. Susto. Um enorme estrondo. Apago.

Acordo, sustentado por alguém, de semblante calmo. Ela me aponta algum lugar. Um carro, amassado por um caminhão. Sinto uma incontrolável vontade de me aproximar do carro. Ela me guiou, vagarosamente. Toco-o. Vejo dois jovens. Frio. Viro o rosto de um deles. Espelho. Aquele semblante era familiar. Tento lembrar quem era. Engulo seco. A dor veio forte no peito. Aquele rosto, era meu rosto. Aquele corpo, era eu.


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